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Só a lealdade importa

Fracasso de indicações para a Petrobras mostra que lealdade a Bolsonaro continua sendo o único critério para a entrada em altos cargos da administração
Só a lealdade importa
Foto: Isac Nóbrega/PR

O pior governo da história brasileira fez burrice novamente, ao indicar nomes para os mais altos cargos da Petrobras.

Em pouco mais de 24 horas, os executivos Rodolfo Landim e Adriano Pires desistiram de assumir os cargos de presidente do conselho e presidente executivo da petrolífera, para os quais haviam sido escolhidos por Jair Bolsonaro.

Landim teve contas rejeitadas em uma passagem anterior pela administração pública e foi  denunciado pelo MPF por gestão fraudulenta. As consultorias de Pires para o setor de gás apontavam para conflitos de interesse. Ficou claro que eles dificilmente se enquadrariam nos critérios de compliance da Petrobras, que obedecem à lógica do setor privado. 

O caso mostra que o governo não aprendeu nada desde junho de 2020, quando o professor Carlos Alberto Decotelli teve de se demitir do cargo de Ministro da Educação antes mesmo de assumi-lo, porque havia turbinado o seu currículo.

Três meses mais tarde, descobriu-se que Kassio Nunes Marques, então candidato a ministro do STF, havia feito a mesma coisa: seu currículo tratava como pós-graduação um curso de fim de semana numa universidade espanhola. Mais uma vez, ninguém no governo havia conferido as credenciais. A mentira no currículo, que Nunes Marques tentou depois acobertar com outra mentira, teria derrubado um candidato em qualquer processo de seleção em uma empresa privada. O Senado achou que a era coisa pouca e aprovou o nome para um cargo público que exige reputação ilibada.

Indicações presidenciais deveriam ser rodeadas de cuidados. Trata-se de gente que vai lidar com dinheiro público, interpretar e aplicar a Constituição, desenhar e executar políticas que afetam milhões de pessoas. Parâmetros rígidos deveriam ser adotados, inclusive para não expor o governo e o próprio indicado a vexames. 

É assim que acontece nos Estados Unidos. Há um departamento na Casa Branca encarregado de esquadrinhar a vida de qualquer pessoa que esteja sendo cogitada para um cargo ligado à presidência. Esse processo de checagem pode se estender por semanas.

Ele verifica as qualificações acadêmicas e esmiúça as três últimas declarações de renda do candidato, em busca de incongruências e potenciais armadilhas para a administração. A certa altura, o FBI entra no processo, para investigar a vida pregressa do sujeito.

Fundado em 1971, para garantir a qualidade das contratações no serviço público, esse departamento conta historicamente com cerca de 100 pessoas. Só no governo de Donald Trump ele foi reduzido a 30 funcionários. Para Trump, certificar-se da lealdade do indicado e do seu alinhamento ideológico eram os primeiros critérios de escolha. O resto não importava muito. Não é diferente com Bolsonaro

Essas nomeações falhadas podem parecer anedóticas, mas denotam algo pior. Amadorismo? Com certeza. Mas também desdém pelo serviço público, e a crença de que os cargos existem para servir ao chefe e sua camarilha, e não ao interesse geral. Diante das informações de que a indicação de Pires não sobreviveria ao escrutínio, Bolsonaro chamou de “jogo sujo” a preocupação em afastar a Petrobras de riscos. 

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