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O trabalho ingrato da imprensa

A repórteres desanimados, digo a que a nossa tarefa é apenas apurar e publicar. O que a sociedade fará com os crimes revelados pela imprensa é problema dela
O trabalho ingrato da imprensa
Foto: Adriano Machado/Crusoé

Uma reportagem do Estadão mostra como o trabalho da imprensa é ingrato no Brasil. O jornal fez um levantamento da ficha criminal de integrantes da cúpula do PL, de propriedade do ínclito Valdemar Costa Neto (foto), legenda na qual Jair Bolsonaro encontrou guarida para tentar uma reeleição cada vez mais distante, aparentemente.

O Estadão publica que, “ao escolher o PL para concorrer à reeleição, o presidente Jair Bolsonaro se alia, nos estados, a dirigentes partidários que são réus em ações penais. Os processos variam de desvio de verbas em obras de rodovias a sequestro e cárcere privado. Entre os presidentes regionais de siglas que vão organizar o palanque de Bolsonaro Brasil afora há, ainda, um condenado por tortura e um deputado envolvido no mensalão, esquema operado pelo primeiro governo do petista Luiz Inácio Lula da Silva.  E o jornal continua: “o histórico judicial dos presidentes estaduais do PL mostra que ao menos 18 dos 27 dirigentes foram ou ainda são alvo de algum tipo de investigação. Destes, quatro respondem a processos que se arrastam na Justiça e dois tentam reverter condenações”.

Para que servirá o levantamento do Estadão.? Para nada. As alianças e negociatas seguirão o seu curso, com o presidente da República dizendo-se a pessoa mais honesta do mundo, embora cercado por uma verdadeira camarilha. E não é que o quadro seja muito diferente em outros partidos, vamos ser justos. O trabalho da imprensa é ingrato como o de Sísifo: empurramos a pedra até o cume da montanha, mas ela sempre rola de volta para onde estava, para que os jornalistas recomecem tudo de novo no dia seguinte, numa tarefa sem fim.

Ontem, em outro exemplo de como as coisas não funcionam neste infausto país, a Crusoé noticiou que, sem investigar nada, o Ministério Público Federal arquivou a investigação sobre os empréstimos liberados pela Caixa a pedido de Michelle Bolsonaro (leia a reportagem aqui, aberta para não assinantes). Foi a revista a revelar o tráfico de influência, que privilegiou amigos da primeira-dama durante o auge da pandemia, quando micro e pequenos empresários lutavam para sobreviver (ainda lutam) e precisavam de financiamento (ainda precisam). Adiantou algo? Não.

Os casos de impunidade e sem-vergonhice abundam.

A repórteres desanimados, digo que o nosso trabalho é apenas apurar e publicar. O que a sociedade fará com os crimes revelados pela imprensa é problema dela. Temos, portanto, que continuar a exercer a nossa função, sem esmorecer. Mas confesso que está cada vez difícil bancar, no meu papel de editor, o chefe imperturbável. Afinal de contas, pertencemos também a essa sociedade.

No julgamento do mensalão e durante a Lava Jato, o Brasil parecia ter tomado o rumo certo. O desmantelamento de quase tudo pelos tribunais superiores, com a ajuda de boa da imprensa (o que torna o contexto ainda mais frustrante), recolocou-nos no papel de Sísifo. Os que acusavam procuradores e juízes de “criminalizar a política” livraram criminosos para atuar na política. E, hoje, temos como favorito na próxima eleição presidencial o Luiz Inácio Lula da Silva citado lateralmente na reportagem do Estadão.

Vamos adiante, com a rapaziada apurando e publicando. A tarefa é ingrata, mas alguém precisa denunciar quem faz o serviço sujo, mesmo que isso dê em nada.

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