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O que querem jornalistas que pedem censura?

Um jornalista desejar que outro não fale será sempre um bumerangue a lhe voltar à testa mais ou menos tarde
O que querem jornalistas que pedem censura?
Foto: brotiN biswaS/Pexels

Uma carta assinada por cerca de duzentos jornalistas pedindo que a Folha de S.Paulo não concedesse mais espaço a ideias consideradas racistas foi divulgada na última quarta-feira. O jornal respondeu defendendo sua liberdade editorial e o imbróglio se fez.   

Não entendo que a defesa pura e simples de uma ideia, desenvolvida com argumentos válidos, possa ser racismo. O racismo geralmente é avesso à via intelectual. Assim como é avesso à via intelectual uma carta que sirva não para pedir o diálogo, mas o silêncio.

Uma carta assim é escondidamente um ato de censura, ou de autocensura, afinal um jornalista desejar que outro não fale será sempre um bumerangue a lhe voltar à testa mais ou menos tarde.

O ponto que me incomoda nessa história toda e que escapou aos que analisaram a carta: o que leva jornalistas a pedirem censura?

É realmente difícil entender um país como o nosso. Com uma história toda entrecortada por autoritarismos e repúblicas de ocasião, a censura nos soa familiar, como um parente que vai ficando em casa, se ajeita no nosso sofá, bebe de nossa cerveja, urina de porta aberta.

Além disso, a censura não é um conceito fácil: habitou tanto a obra de Platão e Rousseau como o cassetete de soldados toscos e a toga de algumas excelências duvidosas. Hoje em dia, é tão hábil que faz crer a alguns ser possível existir uma censura do bem.

Talvez um dos primeiros a cultivar essa ideia tenha sido Owen Fiss. Partindo do pressuposto de que o debate público vivia de poucas e mesmas ideias, o professor norte-americano, na década de 90, propôs que aquelas que fossem menos visíveis – de minorias vulneráveis – silenciassem as demais, ocupando-lhes o espaço, para equilíbrio do debate.   

O problema é que a censura não é um ato intelectual, mas de poder. E não há equilíbrio possível quando resulta em ideias mortas. Também não há equilíbrio, mas pretensão à hegemonia, em ideias impostas pela força. Na prática, a proposta de Fiss – que é a mesma pretendida pela carta dos jornalistas – desequilibra igualmente o debate, apenas invertendo as peças do tabuleiro.

Fiss estava errado; não se alcança o equilíbrio do debate de ideias pelo poder, pois este despreza a transformação, cobiça a ideia única, o mundo reduzido, para que possa dele melhor se apoderar.

E nada mais triste para uma ideia do que ser solitária. Isolada, se torna incapaz de transformar e ser transformada. Canetti, ao tratar do poder, dizia: onde a ocasião para a transformação é impedida, a expressão se enrijece em uma máscara.

Quem passa a viver é a máscara, não a ideia. Não é esse o mundo em que eu gostaria de estar. Não me parece ser o mundo em que jornalistas sejam bem-vindos.

André Marsiglia é advogado, atua nas áreas de Comunicação e Internet e é colunista n’O Antagonista.

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