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O legado do nada

Nada acontecerá com o pastor do quilo de ouro, assim como nada aconteceu com o deputado dos maços de dinheiro. Efeito da demolição da Lava Jato
O legado do nada
Reprodução/Redes Sociais

Há uma relação de causa e efeito entre a demolição da Lava Jato, perpetrada por ministros dos tribunais superiores, com a cumplicidade de jornalistas e advogados muito escrupulosos, e o quilo de ouro exigido pelo pastor Arilton Moura (à esquerda, na foto, ao lado de Milton Ribeiro), que habita o antro do pecado outrora conhecido por Ministério da Educação, para liberar verba para o prefeito de uma cidade do Maranhão. Na verdade, há uma relação de causa e efeito entre o extermínio da Lava Jato e todos os escândalos de corrupção que passaram a pipocar depois que a meticulosa obra de aniquilamento da operação começou.

Os criminosos se sentem agora completamente livres para roubar dinheiro público. Sabem que não haverá nunca mais nada parecido com a Lava Jato, inclusive porque a política é de terra arrasada quanto a todos os instrumentos de que o Ministério Público e a polícia dispunham para investigar casos de corrupção. O recado dado ontem pelo STJ, ao condenar Deltan Dallagnol a pagar indenização a Lula, por causa do famoso PowerPoint, foi bem claro: que ninguém se atreva mais a esquadrinhar a sério a vida de poderosos suspeitos, ou de amigos suspeitos de poderosos suspeitos, sob pena de incorrer em “abuso de autoridade” ou “abuso de poder”. E a impunidade dos gatunos lá de cima estimulará a bandidagem aqui de baixo, esteja certo. A terra é de ninguém.

Assim como nada aconteceu com o deputado Josimar de Maranhãozinho, flagrado em vídeo com maços de dinheiro proveniente de emendas parlamentares, como revelou a Crusoé, nada acontecerá com o pastor Arilton Moura, que teve o áudio divulgado pelo Estadão. O seu patrão, o suposto ministro Milton Ribeiro, que em outro áudio obtido pela Folha diz privilegiar os amigos do pastor Gilmar Silva dos Santos, pode até perder o cargo, mas também nada de realmente grave ocorrerá com ele.

Ao proferir o seu voto contra Deltan Dallagnol, o ministro Luis Felipe Salomão afirmou, salomonicamente: “Houve excesso de poder. Atuou para além de sua competência legal. O erro originalmente de tudo isso, me parece, deveu-se àquele típico juízo de exceção que se deixou funcionar em Curitiba. Criou-se um juízo universal. Sempre fui um crítico desse funcionamento, a meu ver, anômalo. Levou-se muito tempo para reconhecer e só agora se está corrigindo o desvio”.

Em entrevista à Bloomberg, o ministro Gilmar Mendes disse que, numa conversa com Jair Bolsonaro, o presidente da República afirmou que se arrependia de ter nomeado Sergio Moro ministro da Justiça e Segurança Pública. “Olha, cometemos muitos erros, entre eles ter nomeado Sergio Moro. Se tivéssemos um ano de experiência antes, talvez não tivéssemos feito isso”, disse Jair Bolsonaro, segundo o ministro. Ao que Gilmar Mendes respondeu: “Não, presidente. Entre seus legados está ter nomeado Sergio Moro ministro da Justiça e depois tê-lo devolvido ao nada”.

A Lava Jato realmente foi um desvio. O Brasil foi devolvido ao seu caminho rumo ao nada, ao vazio, ao não ser ou não ser. É o legado que deixaremos aos nossos filhos.

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