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Marine Le Pen pode ser eleita presidente da França?

Pode, apesar de Emmanuel Macron continuar a ser o favorito. A candidata de extrema-direita atenuou o discurso e o sentimento anti-Macron nunca foi tão forte
Marine Le Pen pode ser eleita presidente da França?
Foto: Reprodução, Facebook

Marine Le Pen, da extrema-direita, pode vencer as eleições presidenciais francesas, cujo primeiro turno acontece neste domingo? É a pergunta que assombra a União Europeia. Assim como ocorreu em 2017, a candidata do partido Rassemblement National deve ir outra vez para o segundo turno, juntamente com o presidente Emmanuel Macron, que tenta a reeleição. Há cinco anos, contudo, ela não tinha a menor chance de ser eleita. Os franceses optaram pelo voto útil para não ver a extrema-direita chegar pela primeira vez ao Palácio do Eliseu. Hoje, ironicamente, as pesquisas mostram que o voto útil pode ser contra Emmanuel Macron. O candidato do La République en Marche engatou uma ré nas últimas semanas. As projeções mostram que Marine Le Pen (foto) está atrás de Emmanuel Macron, o favorito, quase dentro da margem de erro e, no derradeiro round, poderá levar a melhor.

Ao contrário dos brasileiros, os franceses não gostam de dar um segundo mandato a seus presidentes. Desde que o mandato presidencial passou de sete para cinco anos, em 2002, nenhum presidente foi reeleito. O fato histórico não determina o resultado desta eleição, mas mostra como o eleitorado da França funciona. Ele é exigente e extremamente irritadiço, não importa se de esquerda, de direita ou muito pelo contrário. Viver em Paris é ter de enfrentar manifestações (as “manifs”) semanalmente, mas o fenômeno não se restringe à capital do país. As manifestações do movimento dos coletes-amarelos duraram quase três anos e meio, desde 2018, tomaram o país e contaminaram o mandato quase inteiro de Emmanuel Macron. A violência foi a sua marca. Eu constatei in loco, por exemplo, a depredação do Boulevard Saint-Germain. Nas estradas, os coletes-amarelos ocupavam as rotatórias — e acho que não há lugar com tantas rotatórias como a França –, bloqueando o tráfego de carros e caminhões. Hoje, o movimento é apoiado por 49% dos cidadãos, porcentagem que nunca foi tão alta.

Os coletes-amarelos expuseram o maior problema dos franceses: a perda de poder aquisitivo. Os cidadãos sentem que estão empobrecendo e os recentes aumentos do preço dos combustíveis e da energia, causados pela Guerra da Ucrânia, contribuem para fortalecer essa percepção e enfraquecer Emmanuel Macron. No início do conflito, há quarenta dias, ele viu os seus índices aumentarem quase dez pontos nas pesquisas de intenções de voto. Poucos pareciam dispostos a mudar de presidente em meio à ameaça russa e o desempenho de Emmanuel Macron como líder da Europa parecia encorajador. Mas bastou que os preços disparassem, para que muitos eleitores passassem a considerar a troca de guarda no Palácio do Eliseu. Também não ajudou Emmanuel Macron ter voltado a falar em reforma da previdência, com o aumento da idade de aposentadoria para 65 anos. Talvez embriagado pelo palco que a Guerra da Ucrânia lhe deu, ele deve ter achado que estava suficientemente forte para retomar o tema que havia deixado de lado por causa dos coletes-amarelos. Errou tudo. Inclusive no exagero de marketing: fez uma série de vídeos em que fala enquanto parece trabalhar como executivo de empresa, sem paletó e sem olhar para a câmera. Ao mesmo tempo, recusou-se a comparecer a um programa com outros candidatos na emissora France 2, o “Elysée 2022”, porque se acha perseguido pelos jornalistas do canal. Ele provavelmente seria questionado sobre ter gastado milhões de euros com a consultoria MacKinsey, para a elaboração de programas de governo em diversas áreas, o que fez os comunistas abrirem oportunisticamente uma investigação no Senado às vésperas da eleição.

Emmanuel Macron entrou tarde na campanha, ofuscado pelo julgamento dos eleitores no início da guerra e pela crença propagada pelos seus áulicos de que poderia até mesmo vencer no primeiro turno. Não viu Marine Le Pen crescer. A candidata de extrema-direita foi muito ajudada por Éric Zemmour, do partido Reconquête, da extrema-direita da extrema-direita. Perto dele, Marine Le Pen parece um oásis de equilíbrio. Éric Zemmour, que está em quarto lugar nas pesquisas, levou à enésima potência a xenofobia, o racismo e o nacionalismo que sempre foram marcas do Rassemblement National, antigo Front National. O sujeito tem cara de louco, fala como louco e, portanto, pode ser considerado louco. Ele quer, literalmente, “reconquistar” a França para os franceses, definindo migrantes como “ladrões”, “assassinos” e “estupradores”, com ódio especial dedicado aos muçulmanos. Mas há migrantes e migrantes, para Éric Zemmour. Ele vê com bons olhos a chegada de milhares de ucranianos brancos ao país, e não por razões inteiramente humanitárias. A extrema-direita coloca a imigração ilegal como uma das causas do empobrecimento dos franceses, porque  a mão-de-obra estrangeira roubaria postos de trabalho e rebaixaria os salários.

Marine Le Pen não pensa muito diferente de Éric Zemmour, mas, para fazer ainda mais contraste, baixou o tom extremista e está mais afável, mais “gente como a gente”. Edulcorou-se a ponto de parecer uma escolha razoável (o esquecimento não é um defeito apenas brasileiro). Em 2017, foi apoiada por Vladimir Putin, mas isso não parece ser um problema para os eleitores que se dizem dispostos a votar nela. Quase 20% são jovens, o que não é tão surpreendente, quando se leva em conta que alguns dos seus pontos de vista assemelham-se bastante aos de Jean-Luc Mélenchon, do partido La France Insoumise, de extrema-esquerda, que cativa uma enorme quantidade de eleitores com menos de 30 anos (mais de 30%). Ambos, por exemplo, odeiam a União Europeia, que Jean-Luc Mélenchon quer igualmente ver “refundada”, com o fim da independência do Banco Central Europeu, entre outras coisas simples de fazer, porque o bloco seria outra das causas dos problemas econômicos do país. A teoria da ferradura, usada para ilustrar a proximidade ideológica dos extremos políticos, calça os pés de grande parte dos jovens franceses. O esquerdista furioso está em terceiro lugar nas pesquisas para o primeiro turno, mas ganhou aceleração nos últimos dias.

A ascensão de Emmanuel Macron, que se vendeu como arauto da modernidade, ajudou a sepultar os tradicionais Partido Socialista e Les Républicains, em nível nacional. Nesta eleição, o primeiro tem como candidata Anne Hidalgo, a pior prefeita que Paris já teve; o segundo conta com Valérie Pecresse, cujos discursos parecem esquetes de humor, por causa da oratória e dos gestos artificiais. Ninguém as leva a sério. O efeito adverso do sepultamento foi o fortalecimento dos extremos.

É neste contexto que os franceses irão às urnas: perda de poder aquisitivo, inflação alta, Guerra na Ucrânia, imigração ilegal, extremos robustos  — e um presidente tido como “jupiteriano”, que se comporta como um deus supremo a quem todos devem estrita obediência, que governaria apenas para os ricos e cujo primeiro-ministro, Jean Castex, é um mero executor de ordens presidenciais. O sentimento contra ele e a “Macronie”, como é chamada a sua corte, nunca foi tão forte.

Marine Le Pen poderá, sim, ser eleita presidente da França — o que enfraquecerá a União Europeia, da qual o país é um dos pilares, juntamente com a Alemanha, e fará a alegria de Vladimir Putin. De qualquer jeito, se ela perder no segundo turno, marcado para 24 de abril, não será para um Emmanuel Macron que obteve o dobro dos votos dela em 2017. O atual presidente encolheu da mesma forma que o poder aquisitivo dos franceses. Nos últimos dias, Emmanuel Macron tentou convencer o eleitorado de que votar útil é a favor dele, não contra ele, e agora torce para que a abstenção seja alta, tanto no primeiro turno como no segundo. Isso porque boa parte dos simpatizantes de Marine Le Pen é composta de trabalhadores com baixos salários, tradicionalmente aqueles que menos dão as caras nos locais de votação. O mesmo ocorre com o eleitorado jovem de Jean-Luc Mélenchon.

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