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Algumas palavras sobre a foto de Lula e Alckmin que deve sair hoje à noite

Imagens do encontro tornarão mais difícil a eleição do ex-tucano para o governo de São Paulo e ampliarão as chances de ele ser o vice do petista
Algumas palavras sobre a foto de Lula e Alckmin que deve sair hoje à noite
Foto: Divulgação/Feicon/Reed Exhibitions

Na noite deste domingo, Lula e o agora ex-tucano Geraldo Alckmin (foto) devem ser fotografados juntos pela primeira vez, desde que surgiram os rumores de que eles poderiam se unir para disputar as eleições do ano que vem. 

Os dois têm presença confirmada no jantar organizado por um grupo de advogados especializado em usar o Código de Processo Penal para livrar a cara de quem pratica crimes de colarinho branco. É gente que padeceu horrores naquele breve período em que as delações premiadas e a prisão em segunda instância, combinadas, puseram em risco o seu modelo de negócio. Só faltou rasgarem as vestes e rasparem a cabeça, como fazem os personagens da Bíblia em momentos de angústia. Hoje, a turma está de novo satisfeita. Mas divago. Voltemos à foto.

O restaurante onde acontece o evento é todo aberto. Tem uma árvore enorme bem no meio, mas esconder-se atrás dela não será alternativa para ninguém, pois há três dúzias de jornalistas credenciados para cobrir a noitada. E ainda que o encontro entre o petista e o ex-tucano ocorra numa sala privativa, na cozinha ou no banheiro, é certo que uma imagem vai vazar, como aconteceu no ano passado, depois que Lula e Fernando Henrique Cardoso se reuniram para conversar. O fotógrafo oficial de Lula estava passando pela vizinhança.  

A divulgação dessa imagem estreita o campo de manobra de Geraldo Alckmin.

O mero boato do chamego com o petista já causou curto-circuito na cabeça de muitos de seus apoiadores tradicionais, segundo relatam companheiros de longa data do ex-governador paulista, que conhecem bem o eleitorado conservador do interior do estado.  Ocorre que Alckmin não tem gordura para esbanjar.

Na pesquisa Datafolha divulgada ontem, o ex-tucano aparece em primeiro lugar na corrida para o governo de São Paulo, com 28%.  Em 2022,  no entanto, ele concorreria por um partido novo, provavelmente o PSD, e pela primeira vez sem contar com a máquina da administração pública paulista operando a seu favor. Essa máquina, hoje nas mãos de João Doria, vai tentar dar a vitória ao vice-governador Rodrigo Garcia, que não é inexperiente e já vem articulando apoios e palanques pelo estado há um bom tempo.

Mesmo sem o “fator Lula”, a liderança de Alckmin não é confortável. Uma foto com o petista aumenta as probabilidades de ela se esfarelar na campanha do próximo ano. 

Para Lula, a aliança parece ser neutra do ponto de vista eleitoral, na pior das hipóteses. Uma sondagem da Quaest Consultoria, divulgada há dez dias, mostrou porcentagens iguais de pessoas dispostas a votar em Lula por causa de Alckmin e dispostas a desistir do voto. Os grupos se anularam. 

A aliança também pode levar a uma vitória no primeiro turno. É o que sugere o Datafolha, no qual o número de eleitores simpáticos à parceria supera, em cinco pontos percentuais, o número dos que a rejeitam. 

Em qualquer cenário, Alckmin ajudaria Lula, desde logo, no diálogo com alguns setores do campo, com grupos evangélicos e segmentos da centro-direita descolados de Bolsonaro. 

Não parece mesmo haver contra-indicações significativas para o petista nessa união. 

Em maio de 2020, quando Lula e FHC tomaram chazinho, critiquei o ex-presidente tucano por ajudar o seu antigo adversário a avançar algumas casas no centro do tabuleiro político. Argumentei que a uma distância de mais de dois anos das eleições, ele deveria estar empenhado exclusivamente em ajudar a Terceira Via a ganhar corpo, empurrando para os lados um petismo marcado pela desonestidade e pelo rancor e um bolsonarismo autoritário e perverso. 

Continuo acreditando que o bolsonarismo é intolerável e que emprestar um verniz de moderação ao PT é um erro grave. O anseio pela tal “hegemonia política” está no DNA do partido, o que significa que ele sempre vai buscar o subjugamento dos aliados e a implantação do pensamento único. Geraldo Alckmin está muito perto de colaborar nessa tarefa. A dez meses da eleição, as contas do ex-tucano giram em torno da reinvenção ou, mais propriamente, da sobrevivência políticaO mundo é o que é.

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