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Agamenon: Gentilleza gera gentilleza

Disseram que o filme de Gentili é ruim. Pode até ser, mas o governo do Bolsonaro também é e vai continuar em cartaz pelo menos até as eleições
Agamenon: Gentilleza gera gentilleza
Agamenon/O Antagonista

Continuo aqui na Ucrânia, cobrindo a guerra para O Antagonista. Em volta só vejo fome, destruição e violência; por isso, estou me sentindo em casa, como se estivesse no Brasil. Felizmente o Diogo Mainardi me mandou um kit de primeiros socorros com várias embalagens de hidroxicloroquina e ivermectina e um supositório de vaselina bisurada tamanho extralarge. Supositório tem que ser no tamanho certo. Se for muito pequeno, assenta frouxo e escorrega pra fora. Num gesto de solidariedade entre os povos, ofereci os medicamentos aos pobres ucranianos, mas eles se recusaram a tomar os remédios e me disseram que preferiam a morte. Quanto ao supositório, me mandaram enfiar numa parte remota da minha anatomia.

O presidente Vladimir Rasputin continua endurecendo a ofensiva russomana, e o Ocidente já começa a achar a guerra chata. Para os líderes mundiais e para os analistas da GloboNews, Vladimir Bonin, o Boninho, está se repetindo e não passou na prova do líder. Em resposta aos críticos, Putin diz que vai mandar todo mundo pro paredão.

Sou obrigado a interromper este relato emocionante para comentar a recente proibição do filme de Danilo Gentinha. A comédia foi lançada cinco anos atrás e, como acontece com todo filme brasileiro, não foi vista por ninguém. Relançada pela Netflix, a película foi vista pelos bolsonaristas desocupados, que imediatamente começaram uma furiosa campanha contra o filme. Os bolsonazis, como todo mundo sabe, zelam pela moral, pelos bons costumes e pela família, em especial a família Bolsonaro. Os seguidores do presidente acusaram o filme de apologia à pedofilia e corrupção de menores. Os bolsonaristas só admitem a corrupção de maiores e a pedofilia para fins de reprodução e conseguiram que a faixa etária fosse mudada de 14 para 18 centímetros. 

Como todos sabem, não costumo assistir aos filmes antes de criticá-los, para não me deixar influenciar. Mas, como sou um paladino da liberdade de expressão, fui obrigado a assistir a este filme que também conta com a presença do onipresente Fábio Porchat. Ele consegue estar ao mesmo tempo nos esquetes do Porta dos Fundos, em dez programas na TV a cabo (e a talo também), em centenas de shows de stand-up e milhares de lives ao vivo. 

No meio de tantas atividades, o argentário comediante achou tempo para fazer o papel de um Vladimir Putin, pedofilia pedófilo no filme do Gentili. Segundo a direita, o filme faz apologia da pedofilia, e alguns de seus arautos, influenciados pelo conteúdo, foram correndo pra porta das escolas exibir seus argumentos para as criancinhas indefesas. Como sempre, os debates no Brasil se caracterizam pela burrice e pelo mau-caratismo. Não necessariamente nesta ordem. Alguns membros da “ignorantzia”, depois de elogiar a invasão da Ucrânia pela Rússia para combater o imperialismo americano, justificaram a censura e disseram que o filme é ruim. Pode até ser, mas o governo do Bolsonaro também é e vai continuar em cartaz pelo menos até as eleições.

Agamenon Mendes Pedreira é contra a pornografia e a sacanagem no governo.

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