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Jair Bolsonaro e as novas faces do negacionismo

Arqui-inimigo da realidade, o presidente não se contentou em sabotar a ciência e avançou sobre o sistema eleitoral e a responsabilidade fiscal
Jair Bolsonaro e as novas faces do negacionismo
Foto: Isac Nóbrega/PR

Em 2021, o negacionismo de Jair Bolsonaro transcendeu a pandemia. O presidente não se contentou em atentar apenas contra a ciência e inaugurou o negacionismo eleitoral, com seus ataques às urnas eletrônicas, e o negacionismo fiscal, com a destruição do teto de gastos.

Ao longo do ano, Bolsonaro aumentou a sua devoção ao Centrão, entregando o que restou do governo ao PP, que agora domina a Casa Civil, com Ciro Nogueira no comando, e ao PL, aquela organização dirigida por Valdemar Costa Neto, sujeito reto e vertical, que viria a abrigar o presidente, até então sem partido.

O presidente começou 2021  tendo que engolir a Coronavac, depois de passar meses atacando a “vacina chinesa de João Doria”Em janeiro, o governo federal assinou um acordo para a aquisição de 100 milhões de doses do imunizante.

O Planalto pretendia trazer ao Brasil doses da vacina Covishield, o imunizante da AstraZeneca produzido na Índia, antes que Doria começasse a aplicar a Coronavac. Mas uma sucessão de trapalhadas do governo atrasou o envio das doses, e Bolsonaro teve que assistir a Doria vacinando a primeira pessoa contra a Covid no Brasil, em 17 de janeiro, logo após a aprovação da Coronavac pela Anvisa.

Enquanto o número de casos e mortes por Covid aumentava dramaticamente no país, em Manaus, o governo realizava testes com medicamentos ineficazes contra a Covid, num contexto trágico de pacientes da doença que morriam sem oxigênio nos hospitais.

Preocupado apenas com a sua sobrevivência política, o presidente fez campanha pelo Centrão na disputa pelas presidências do Congresso. O cacique do PP Arthur Lira substituiu Rodrigo Maia no comando da Câmara e continuou sentado nos mais de 100 pedidos de impeachment de Bolsonaro.

No Senado, Rodrigo Pacheco, eleito com apoio de Bolsonaro e do PT, ignorou durante meses o pedido para instalar uma CPI para investigar os crimes do governo em meio à pandemia. A comissão só foi instaurada graças à decisão do ministro do STF Luís Roberto Barroso.

A vitória dos candidatos do governo contou com a liberação de mais de R$ 3 bilhões em emendas parlamentares. O método de “articulação” seria usado diversas vezes.

Empenhado na sabotagem das medidas de isolamento social e na prescrição de cloroquina, aquele remédio inútil que só faz efeito contra a Covid no universo paralelo bolsonarista, o presidente ignorou a piora contínua da taxa de contaminação pelo coronavírus em todo o país, que chegou ao seu máximo trágico com 4.249 mortes registradas em 24 horas, no início de abril.

Nada, absolutamente nada, demoveu Bolsonaro de esmerar-se nas suas demonstrações diárias de sociopatia. Em março, por exemplo, ele pediu que os brasileiros parassem “de frescura e de mimimi”: “Vão ficar chorando até quando?”

Com a popularidade despencando, Bolsonaro ameaçou dar um golpe de estado, dizendo que o “seu Exército” não iria às ruas para cumprir medidas restritivas impostas por governadores. Os comandantes da Forças Armadas renunciaram de forma conjunta.

Diante do aumento da pressão sobre o governo, o Ministério da Saúde finalmente assinou um contrato para a compra de 100 milhões de doses da vacina da Pfizer, assim como um também assinou um contrato, cheio de irregularidades, para a compra da vacina indiana Covaxin, que viria a ser alvo da CPI meses depois.

Para tentar minimizar as críticas pela catástrofe sanitária, Bolsonaro decidiu sacrificar Eduardo Pazuello. O médico Marcelo Queiroga foi escolhido para comandar a Saúde, como uma opção mais técnica. Com o passar do tempo, o novo ministro se mostrou mais parecido com o antecessor do que se imaginava, “um Pazuello de jaleco”.

Ainda em março, um velho personagem chegou para assombrar o presidente. O STF anulou todas as condenações de Lula na Lava Jato, consagrando um processo de desmoralização da operação patrocinado pelo próprio Bolsonaro.

O ex-presidiário voltou a ser elegível e, impulsionado pelo desastre do governo no combate à pandemia e o consequente esgarçamento da economia, passou a ser o favorito nas pesquisas para chegar ao Planalto em 2022. A volta de Lula ao jogo intensificou a sequência de ameaças golpistas do presidente, que teriam seu momento culminante em 7 de Setembro.

Bolsonaro sofreu mais um baque em abril, quando o ministro do STF Luís Roberto Barroso determinou a instauração da CPI da Covid. O governo foi derrotado na composição do colegiado, não conseguiu emplacar sua base como majoritária na comissão a e teve que engolir o indigesto Renan Calheiros como relator.

A tropa de choque de Bolsonaro na CPI falhou miseravelmente ao tentar esconder a incompetência e o descaso do governo com a doença que, até o final de 2021, mataria mais de 611 mil brasileiros. Os depoimentos comprovaram que o presidente ignorou ofertas da Pfizer, vetou a compra de Coronavac, apostou na imunidade de rebanho, defendeu medicamentos ineficazes contra a Covid e foi aconselhado por um “Ministério da Saúde paralelo”.

Para piorar a imagem do Planalto, veio à tona em maio o escândalo do orçamento secreto, que escancarou como o governo usava dinheiro público de forma espúria para comprar votos de parlamentares.

Como se nada estivesse acontecendo, Bolsonaro continuava viajando pelo país sem máscara, provocando aglomerações e promovendo motociatas.

Os trabalhos da CPI já pareciam caminhar para uma conclusão, quando surgiram denúncias sobre esquemas de corrupção ligados à compra de vacinas.

Em junho, O Antagonista revelou com exclusividade que o deputado Luis Miranda, irmão do servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, relatou a Jair Bolsonaro, em março, que havia uma série de irregularidades no contrato da pasta para a compra da vacina indiana Covaxin.

O acordo, assinado com a empresa intermediária Precisa Medicamentos, previa o pagamento antecipado de US$ 45 milhões a uma offshore em Singapura.

Segundo Miranda, Bolsonaro, ao ser informado sobre o caso, teria associado as irregularidades a Ricardo Barros, líder do governo na Câmara. O presidente, que nunca desmentiu Miranda, passou a ser investigado por prevaricação.

À medida que as investigações avançavam, Renan Calheiros robustecia o seu relatório com os delitos cometidos pelo presidente e pelo alto escalão do governo. Cada vez mais encurralado, Bolsonaro intensificou seus ataques às instituições.

O presidente se agarrou à obsessão pelo voto impresso. Ele passou a afirmar a apoiadores no cercadinho do Palácio da Alvorada e em suas lives que as eleições de 2018 foram fraudadas para que ele não vencesse no primeiro turno. Segundo Bolsonaro, as urnas eletrônicas não são confiáveis e o TSE pretende manipular as eleições de 2022 para beneficiar Lula.

Em julho, o presidente realizou uma live constrangedora para tentar demonstrar a suposta fraude. Como se esperava, Bolsonaro não apresentou prova nenhuma, apenas fez acusações sem qualquer embasamento técnico.

Depois do episódio, ele foi incluido no inquérito das fake news pelo ministro Alexandre de Moraes e passou a ser investigado por divulgar dados sigilosos do TSE. Nesse contexto, o presidente teve que apelar para Ciro Nogueira, a fim de tentar conter a pressão pelo impeachment.

O cacique do Centrão passou a comandar a articulação política do governo por meio da Casa Civil.

No dia da votação da PEC do voto impresso na Câmara, em agosto, o presidente promoveu um desfile de tanques na Esplanada dos Ministérios, numa tentativa de intimidar os parlamentares.

O episódio ridículo, que contou com blindados que soltavam muita fumaça, virou piada nas redes sociais. O texto da PEC foi rejeitado.

Ainda assim, Bolsonaro manteve seus ataques às urnas eletrônicas e a Luís Roberto Barroso, presidente do TSE, que, segundo Bolsonaro, teria sido o responsável por convencer os deputados a votarem contra a proposta.

Barroso passou a ser o principal alvo do presidente, ao lado de Moraes, que apertava o cerco contra bolsonaristas, como Roberto Jefferson, preso no inquérito das fake news por ameaças a ministros do STF e pela defesa de um golpe de estado.

A apoteose da postura antidemocrática do presidente foram os atos de 7 de Setembro. Durante semanas, Bolsonaro convocou seus apoiadores para manifestações em São Paulo e em Brasília, falando em “ruptura” e dizendo que o STF precisava ser “enquadrado”.

O presidente prometia levar 2 milhões de pessoas à Avenida Paulista. O evento ficou muito aquém do esperado, e Bolsonaro acabou encolhendo.

Ao discursar para seus aloprados, ele chamou Alexandre de Moraes de “canalha”, disse que não iria mais cumprir decisões do ministro e ameaçou mais uma vez a democracia.

Depois da reação negativa da imprensa e dos mercados, o presidente arregou. Bolsonaro teve que apelar a Michel Temer, que propôs que ele ligasse para Moraes para se desculpar.

Depois de falar com o ministro, Bolsonaro divulgou uma carta de recuo redigida por Temer.

Em outubro, a CPI da Covid finalmente terminou seus trabalhos. O relator Renan Calheiros pediu o indiciamento de Bolsonaro por nove crimes: epidemia com resultado morte, infração de medida sanitária preventiva, charlatanismo, incitação ao crime, falsificação de documento particular, emprego irregular de verbas públicas, prevaricação; crimes contra a humanidade, nas modalidades extermínio, perseguição e outros atos desumanos; e crimes de responsabilidade.

A ideia inicial era também imputar ao presidente os crimes de genocídio e tentativa de homicídio, mas Renan desistiu.

Com o presidente derretendo nas pesquisas, o governo trabalhou durante meses na confecção de um novo programa assistencial, para turbinar a campanha de reeleição de Bolsonaro. A equipe outrora econômica, que sofreu defecções, propôs um calote nos precatórios e um rombo no teto de gastos para custear o benefício.

Para aprovar a medida, o Planalto não poupou esforços e recursos do orçamento secreto para comprar votos de parlamentares. Em novembro, o texto foi aprovado na Câmara e, na sequência, no Senado, com algumas modificações.

Em uma gambiarra legislativa, a PEC foi promulgada de forma fatiada, e trechos dela sobre os quais não havia convergência com a Câmara ficaram para o ano que vem.

No final do ano, Bolsonaro filiou-se finalmente ao PL, propriedade de Valdemar Costa Neto. Além de assombrado eleitoralmente por Lula, o presidente agora também é assombrado por Sergio Moro, que se filiou ao Podemos para lançar-se ao Palácio do Planalto.

Com medo, Bolsonaro intensificou seus ataques ao ex-juiz, batendo na tecla de que ele é um traidor.

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