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Eleição municipal não determina eleição nacional e vice-versa

Eleição municipal não determina eleição nacional e vice-versa
Reprodução/YouTube

Ao que indicam as pesquisas, Jair Bolsonaro não está conseguindo amealhar votos para os candidatos que apoia. Pelo contrário, eles estão perdendo eleitores. Em São Paulo e Rio de Janeiro, as maiores cidades do país, o quadro é este: Celso Russomanno, do Republicanos, despencou vertiginosamente e deve perder o lugar no segundo turno para Guilherme Boulos, do PSOL; Marcelo Crivella, igualmente do Republicanos, atual prefeito carioca, está empatado com Martha Rocha, do PDT, e também pode ser alijado do novo round. Os primeiros colocados em ambas as cidades são, respectivamente, Bruno Covas, do PSDB, que tenta a reeleição, e Eduardo Paes, do Democratas, que já foi prefeito do Rio.

O fato de os candidatos apoiados por Jair Bolsonaro estarem sangrando eleitoralmente é sintoma de que Jair Bolsonaro está perdendo aprovação popular? Sim, mas não é plebiscito definitivo. É sinal de que, se não estivesse perdendo aprovação, os candidatos dele estariam melhor nas pesquisas? Talvez, mas depende do caso. Russomanno, por exemplo, é um perdedor nato, e Marcelo Crivella conseguiu a façanha de ser o pior prefeito carioca de todos os tempos. Mostra que Jair Bolsonaro já pode renunciar à reeleição em 2022? De jeito nenhum, embora obviamente a rejeição atual não ajude, por apontar uma tendência de esgarçamento popular,

Eleições municipais não têm ligação de causa e efeito automática com o que ocorre em Brasília. Os seus resultados dependem muito mais da força local do candidato ou do seu partido do que de questões ideológicas ou política nacional. Se presidente da República fosse determinante em campanha municipal, o PSDB teria feito os prefeitos de São Paulo depois da criação do Plano Real e durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Não fez nenhum. Lula fez apenas dois dos quatro prefeitos paulistanos enquanto o PT esteve no poder: Marta Suplicy e Fernando Haddad. Mesmo surrado na eleição presidencial de 2006, o tucanato elegeu o então aliado Gilberto Kassab e deverá permanecer à frente da prefeitura paulistana, independentemente do desempenho ridículo do PSDB na última eleição presidencial. Será por falta de opção viável a Bruno Covas.

No Rio de Janeiro, o PT não conseguiu virar um partido forte na cidade ao logo de quase quatro mandatos presidenciais petistas. Em 2008, no auge de sua popularidade, Lula não declarou apoio a nenhum candidato carioca. O petista sempre soube que presidente popular não se sobrepõe às condições locais de temperatura e pressão partidárias. Nas eleições deste ano, com a forte rejeição ao PT, Lula se viu obrigado a fazer alguma propaganda, não muita, para constatar, como se precisasse, que o PT é Lula e Lula é o PT, o resto é poste.  Durante o tempo em que esteve na Presidência, o partido conseguiu o máximo de 636 das 5.565 das prefeituras do país, pouco mais de 10% do total. O MDB tinha e tem o dobro, apesar de recentemente ter carregado um fardo nacional chamado Michel Temer.

Da mesma forma que partido forte localmente não precisa tanto assim de presidente da República, ele não também não faz presidente da República próprio só porque exibe musculatura municipal. É o caso, aliás, do MDB. Os seus dois presidentes da República, desde a redemocratização, só chegaram ao poder no vácuo deixado por mandatários que foram chutados do Palácio do Planalto: Itamar Franco, que fez carreira no partido, embora já tivesse saído dele havia algum tempo quando subsitituiu Fernando Collor, e Temer, que ocupou o lugar de Dilma Rousseff.

Jair Bolsonaro é o primeiro presidente eleito que ficou sem partido (o apartidário presidente Itamar foi eleito vice). As suas legendas sempre foram de aluguel. Não conseguiu ter a sua própria e agora negocia para voltar ao PSL.  Por si só, o fato de não ter partido pesa negativamente numa campanha municipal. Ele fica sem âncora nas cidades. Na circunstância específica deste ano, Bolsonaro também se comporta de maneira abjeta em relação à pandemia de Covid-19, acontecimento que é ponto fora da curva na história recente de todas as nações. O peso negativo dobra e contamina todos os níveis da administração pública. E a partir do ano que vem?

Com a Covid-19 grassando, a economia ruiu, mas o país deve voltar a crescer em 2021, se houver vacinação em massa no país e na parte do planeta que nos interessa comercialmente. Como demonstra a história das pandemias, associada à capacidade inigualável de esquecimento dos brasileiros, pode ser que no final de 2022 a Covid-19 seja uma recordação razoavelmente longínqua do ponto de vista político. Se o contexto brasileiro se mostrar relativamente positivo na economia (não esqueçamos que desempenho medíocre, no Brasil, é visto como bom porque tudo poderia ser muito pior); se o presidente conseguir salvar Flávio Bolsonaro na Justiça; se a polícia não surgir com novidades sobre ele e a sua família; se o Centrão topar um segundo mandato para o capitão — se tudo isso ocorrer, Jair Bolsonaro manterá a chance de reeleger-se, como todos os presidentes que quiseram repetir a dose. São muitas condicionantes, está certo, mas nenhuma delas está conectada automaticamente a ter menos prefeitos endossados por Jair Bolsonaro em 2020. Eleição municipal não determina eleição nacional e vice-versa. O maior aliado nacional das candidaturas municipais chama-se Fundo Partidário.

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