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A essência fuleira do bolsonarismo

Silveira virou mártir, e Bolsonaro paladino, da liberdade de expressão. Mas é o desvio de dinheiro público em parcelas módicas que revela a alma da gangue
A essência fuleira do bolsonarismo
Foto: Reprodução

No meio de toda a polêmica sobre a condenação de Daniel Silveira e a graça que lhe concedeu o nosso antipresidente, ficou em segundo plano o fato de que o deputado federal está sendo processado por desviar dinheiro da Câmara para o próprio bolso. Leio em O Globo que ele está, inclusive, fugindo há dois meses dos oficiais de justiça que tentam intimá-lo a depor no inquérito. 

O Ministério Público Federal encontrou indícios de que Silveira usava recursos destinados ao exercício do mandato parlamentar para pagar um advogado particular. Os pagamentos eram sempre feitos em espécie, e remuneraram supostos trabalhos de “consultoria”. 

A tal consultoria não deixou um sinal sequer de sua existência: nenhum relatório, nenhum parecer, apenas notas fiscais. Esse é um truque clássico dos esquemas de lavagem de dinheiro.

Também não há indício de que o advogado tenha depositado o dinheiro em sua conta. Os investigadores trabalham com a hipótese de que os 220 mil reais gastos por Silveira com esse profissional tenham voltado à sua carteira – em parte, ou até mesmo na íntegra.

A falcatrua não é muito diferente daquela que Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro parecem ter realizado à farta em suas vidas parlamentares. Não é uma rachadinha clássica, na qual a “autoridade” obriga seus funcionários a devolverem parte do salário. Mas também é um jeito de transformar o mandato político em ferramenta para a roubalheira. 

Daniel Silveira converteu-se em mártir, e Bolsonaro em paladino, da liberdade de expressão. Mas a verdadeira dimensão moral e política dessa gangue se revela nesses flagras de corrupção mequetrefe, que desvia dinheiro público em parcelas módicas.

Acho cada vez mais improvável que Bolsonaro seja punido pelas barbaridades que cometeu na presidência. Mas já ficarei satisfeito se ele e seus filhos (e também Daniel Silveira) forem condenados pelas rachadinhas, ou práticas afins, com que enriqueceram ao longo de anos. Talvez seja até uma forma de justiça poética. 

O risco é Bolsonaro conceder uma graça a todo mundo, inclusive ele mesmo, antes de deixar a Presidência. Não faltarão juristas como Yves Gandra Martins Jr. prontos a legitimar esse gesto desinteressado. 

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